Vale a pena trabalhar na indústria de jogos?

Vale a pena trabalhar na indústria de jogos?

Semana passada um dos jogos mais esperados do ano foi lançado, o Red Dead Redemption 2, da Rockstar. Porém, não foi apenas o hype para o título AAA que chamou a atenção, mas também alguns relatos de funcionários da Rockstar a respeito das várias extras horas e finais de semanas trabalhados, além de toda pressão da produção de um jogo desse tamanho. Existem variações em escala, mas este é um assunto recorrente nas empresas de desenvolvimento de jogos no mundo todo. Será que vale a pena trabalhar nesta indústria?

Infelizmente o crunch time é algo comum no desenvolvimento de um jogo, seja para atingir aquele último milestone do projeto ou para correr atrás do tempo perdido em uma feature que mudou no meio de uma sprint. Será que esses casos são falta de planejamento ou é realmente difícil definir um cronograma de médio e longo prazo em um produto que envolve áreas bem diferentes?

Na minha opinião, e baseado na minha experiências trabalhando com desenvolvimento de jogos há 8 anos, não acredito que o problema seja apenas falta de planejamento - o maior problema é não saber “dizer não” ou que “não vai dar tempo”. É claro que falar um “não” só por falar não vai ajudar em nada, por isso é importante sempre ter um plano, uma sugestão, uma saída que não envolva a equipe ficar até tarde todos os dias e finais de semana trabalhando para alcançar uma data.

Quando planejamos uma sprint de 2 semanas, por exemplo, contamos o trabalho de cada desenvolvedor trabalhando 8 horas por dia de segunda à sexta. Isso quer dizer que se foi preciso fazer horas extras durante a sprint para entregar o milestone no final das 2 semanas, ela falhou. O planejamento de tarefas e a velocidade da equipe estão errados, provavelmente otimista demais. E sabe qual é o problema de fazer horas extras nessa situação ao invés de levantar uma bandeira de que não vai dar tempo? Todos ficam mal acostumados e começam a pensar que “se não der, não tem problema trabalhar algumas horas a mais”. Agora, pensa nisso toda semana, todo mês, até que se torna uma bola de neve e você está trabalhando no final de semana para tentar terminar algo que desde o planning da sprint já estava claro que não ia dar tempo.

E isso piora quando há um certo “orgulho” em fazer crunch time para lançar um jogo, e parece ser algo cultural em muitas empresas, desde gigantes como a Rockstar até pequenos desenvolvedores indies pelo Brasil. E isso é reforçado pelas empresas ao abusarem do “sonho” de muita gente em trabalhar com desenvolvimento de jogos, ainda mais em lugares onde está indústria é muito pequena e competitiva. Tem muita gente que não se importaria de trabalhar mais de 100 horas por semana para poder desenvolver um jogo como Red Dead Redemption 2, e é o caso de muita gente dentro da própria Rockstar. Mesmo em uma empresa grande existe o medo de perder o emprego se não trabalhar 24 horas por dia, sem falar no orgulho em trabalhar em um projeto que em 3 dias faturou 725 milhões de dólares, quebrando recorde de um lançamento na indústria de entretenimento.

É nesse momento que quem trabalha na indústria e passa por uma situação assim pensa: será que vale a pena? Vale a pena sacrifiar horas de sono, qualidade de vida, vida social, e as vezes até relacionamentos para lançar um jogo? Não sei o quanto a indústria vai mudar em relação a isso, mas por enquanto esta resposta vai depender muito de por que você faz o que faz. Pra mim está claro por que eu faço jogos: o impacto que a experiência em um jogo pode ter na vida de outra pessoa. Por eu ter isso bem definido consegui “sobreviver” a vários crunch times e lançar alguns jogos que realmente tiveram este impacto. E, por mais que eu não concorde com esta situação infeliz de tudo isso ser normal na indústria, não é algo que faz eu me afastar do por que escolhi esta profissão.

Bruno Cicanci

Bruno Cicanci
Desenvolvendo jogos desde 2009.

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