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Entrevista: Carlos Estigarribia, diretor na RightZero

Carlos Estigarribia começou a trabalhar com jogos para dispositivos móveis quando estes aparelhos ainda eram tijolos monocromátivos. Quando eu entrei na Electronic Arts, ele era o Diretor do estúdio no Brasil, e ano passado deixou a empresa e abriu a RightZero para explorar um nicho muito importante para o mercado de jogos por aqui. Confira a entrevista abaixo!

Como surgiu o interesse em trabalhar com jogos? Desde o início seu interesse foi por mobile?

Bom, como quase todo mundo que trabalha na área o interesse surgiu desde que comecei a jogar quando era pequeno. Depois do Atari passei logo para o PC XT, com tela “verde”, daquelas que deixavam o olho vendo tudo meio rosa depois de horas de jogo.

O interesse real veio na época da faculdade, mais para o final do curso, quando tinha que decidir o que fazer e não me via trabalhando como desenvolvedor de software para bancos ou coisas “caretas”. Surgiu uma oportunidade de estágio numa empresa que fazia CD-ROM de jogos educacionais (meados dos anos 90) e por ali iniciei a carreira. O interesse por mobile veio anos depois, na época que eu comecei não havia nem telefone celular ainda.

Sua formação em Engenharia da Computação ajudou no início da sua carreira?

Com certeza, me deu uma excelente base de programação em qualquer linguagem, pois focávamos muito em algoritmos, estrutura de dados e orientação a objeto, sem focar numa linguagem específica. Isso ajuda até hoje, já que linguagens novas surgem toda hora e na prática são todas iguais, sabendo bem os conceitos é questão de aprender a sintaxe.

Além das matérias ligadas à desenvolvimento de software tinhamos também muita coisa ligada à “hardware”, circuitos elétricos e protoboards (e programação em Assembly). Na época achava que não iria usar, e realmente não usei diretamente, mas ajudou a aguçar o sentido de explorar e de se divertir mexendo em tudo o caísse na frente.

Você trabalhou alguns anos na LocZ e na SkyZone, como foi começar a trabalhar com jogos em uma época que os celulares eram aparelhos extremamente limitados para entretenimento?

Nós começamos na primeira geração de aparelhos, tínhamos fazer jogos WAP e SMS. O desafio era como fazer jogos que cativassem o jogo usando só texto. O grande aprendizado foi que é possível sim, e que na verdade o bom gameplay é que faz o diferencial. Claro que tendo mais recursos certos estilos de jogos ficam mais interessantes (e outros estilos aparecem), mas as premissas de criação de jogos são as mesmas, independente da sofisticação do console, celular ou PC.

O fundamental é entender o que cada meio tem de melhor e como o jogador se comporta enquanto joga. Para celular saber que o jogador tera sessões curtas e interrupções constantes foi algo que aprendemos logo nos primeiros jogos.

Depois disso, você foi um dos responsáveis por começar o estúdio da Electronic Arts Mobile em São Paulo. Quais foram os desafios para começar um estúdio de uma empresa de fora aqui?

O maior desafio foi adequar e treinar o time rapidamente nas ferramentas workflow de uma empresa grande, de modo a sermos produtivos rapidamente.

Outro ponto importante foi de ter a noção de fazer parte de uma empresa global, com projetos sendo feitos em conjunto com até 4 estúdios ao mesmo tempo, essa foi uma grande quebra de paradigma, até então nós produzíamos tudo em um estúdio só, esse modelo de co-produção era novidade para nós.

Como diretor da EA Mobile, sua visão de negócios mudou em relação a visão que você tinha antes?

Sim, mudou muito. Na EA eu consegui ver o lado “big business” do mundo dos games, até então eu tinha uma visão de startUP, me ajudou muito a entender os dois lados e as decisões difíceis que precisam ser tomadas regularmente.

Como você vê o fim do estúdio da EA Mobile em São Paulo, em relação ao mercado de desenvolvimento de jogos no Brasil?

O que aconteceu na EA é normal, a cada 5 anos sempre ocorre readequação das grandes empresas de jogos para otimizar o lucro, não vejo muito como essa história poderia ter sido diferente, o corte atingiu praticamente todos os estudios de mobile e social da EA, foi uma mudança de mentalidade da matriz, não teve nada a ver com o resultado do estudio aqui, que era positivo.

Em relação ao mercado daqui o que eu adoraria ver seria o time da EA (e o da Glu também) conseguindo investimento para montar um novo estudio nacional de mobile, pois os profissionais são altamente qualificados e será uma pena se o time seguir para outras áreas, isso pra mim é a grande perda, mais de 7 anos de treinamento que podem ir por água abaixo se ninguem aproveitar os talentos e criar um novo estúdio rápido.

Sua empresa atual, a RightZero, tem como foco auxiliar empresas de games que querem fazer negócios no Brasil. Como surgiu a oportunidade de explorar esse nicho?

Desde 2011 eu comecei a ser consultado por muitas empresas de fora querendo dicas para entrar aqui. Na época estava ainda na EA e não poderia atuar em outros negócios. Decidi então sair e montar novamente um negócio próprio, focando nessa necessidade dos americanos, europeus e asiáticos de entender o mercado brasileiro de jogos. O negócio surgiu depois que eu identifiquei essa demanda.

Como as empresa de fora veem o mercado brasileiro (consumidores e desenvolvedores)?

Na parte de mercado consumidor o Brasil é a bola da vez, basta ver o número de empresas lançado jogos localizados para cá, ninguem faz isso se não houver mercado. A tendência é de crescer mais ainda, pois o número de pessoas que estão finalmente tendo acesso à banda larga e a computadores bons o suficiente para rodar jogos não pára de crescer. O mesmo vale para mobile, a migração para SmartPhones e Tablets está acelerada.

No que se refere a desenvolvimento o Brasil ainda não tem história, então eu vejo pouca chance de um estúdio querer entrar aqui para desenvolver. Os casos que tivemos no passado da Glu e EA foram iniciativas que partiram do porting para o mercado local e depois expandiram para produção de jogos para fora, mas não vejo essa necessidade para jogos de iOS, Android ou Browser, dá pra fazer lá fora.

Você aconselharia alguém que quer trabalhar com jogos no Brasil a abrir sua própria empresa? Por que?

Sim, mas o fundamental é ter os sócios certos, a meu ver a empresa de jogos (ou qualquer outra em industrias criativas de tecnologia) precisam ter 3 figuras distintas:

– diretor de tecnologia
– diretor de design/produto
– diretor de desenvolvimento de negócios

Sem isso a empresa vai acabar não conseguindo vender seu peixe, ou o produto vai ser bom mas sem um “wow” factor, ou vai ser bonito mas não vai escalar bem.

O grande problema é que geralmente as empresas não tem 3 pessoas que se complementem, e mesmo que seja apenas 2 socios bem intencionados chega num ponto em que vai faltar tempo (ou saco) para tocar essas 3 áreas. Nessa hora as empresas começam a contratar alguem que supra o que falta, mas é necessário que a pessoa seja sócia para realmente dar certo.

Que dica você daria para quem quer ser um empreendedor na área de games no Brasil?

Além dos toques basicos do tipo “fale ingles MESMO”, “estude muito”, “se prepare para ficar noites sem dormir”, etc, a dica que dou para qualquer pessoa (independente de ser de games ou não) que queria montar uma empresa é: tem que estar disposto a arriscar MESMO, no sentido de saber que cada dia que você está com sua própria empresa é um dia a menos que você poderia estar empregado e recebendo no final do mês, então você deve ter um plano muito claro de onde está investindo o seu tempo e o que realmente deseja alcançar no final. Se você pudesse estar recebendo mais e se realizando mais estando em uma empresa, não faz sentido pra mim ter seu próprio negócio.

As pessoas as vezes confundem um chefe chato, ou uma empresa ruim com “eu queria mesmo era ter a minha própria empresa”, e não é isso.

Empreender dentro de uma empresa já existente pode ser o caminho para muita gente, emprender não é so montar uma empresa, mas ter uma visão clara do que você quer pro seu futuro e de coisas realmente vão te dar satisfação. Pode ser dentro de uma empresa ou montando a sua própria, vai de cada um, mas o conceito de empreender é que muita gente não entende realmente.